O ano de 2020 não foi exatamente um daqueles que deixaram muitas saudades. Mas, no céu, o finalzinho desse ano trouxe uma conjunção muito especial entre os planetas Júpiter e Saturno. A palavra conjunção vem do latim conjunctio, união; o que em Astronomia designa a aproximação aparente entre dois ou mais astros.
Dizemos “aparente” porque os astros em questão não precisam estar necessariamente próximos. É mais uma questão da nossa perspectiva na Terra. Aproximações aparentes entre Júpiter e Saturno são relativamente raras, ocorrendo uma vez a cada 20 anos, ou mais, mas a conjunção de 21 de dezembro de 2020 (mesmo dia que começa o verão) é excepcional por quão próximos esses planetas parecerão um do outro.
Vistos por um telescópio, mesmo modesto, Júpiter e Saturno são sempre alvos atraentes porque podemos facilmente ver as luas do primeiro e os anéis do segundo. Mas durante toda a sua vida foi preciso montar e apontar o telescópio para direções diferentes do céu, às vezes em noites diferentes também, para apreciar esse dois mundos gigantes.
Ao anoitecer da segunda-feira, 21, os dois puderam ser vistos numa mesma ocular de telescópio (0,1° de separação angular, ou 1/5 do diâmetro da Lua: veja a gravura abaixo). A última vez que ficaram tão próximos foi na madrugada de 4 de março do 1226 – quase quatro séculos antes do primeiro telescópio!

VISÃO através de um telescópio amador (60mm de abertura ou mais).
Grandes conjunções entre Júpiter e Saturno também aconteceram em 16 de julho de 1623 e em 18 de fevereiro de 1961. Após 2020 outra acontecerá em 15 de março de 2080. Depois disso, Júpiter e Saturno não voltarão a ficar tão próximos no céu noturno até o ano 2400.
Melhor ao Sul
Claro que a conjunção entre Júpiter e Saturno de 21 de dezembro de 2020 foi facilmente visível a olho nu. Júpiter é um planeta muito brilhante e Saturno, embora consideravelvamente mais fraco, vai ser muito fácil de encontrar por causa dessa aproximação.
Porém, quanto mais ao Norte fosse a posição do observador, menos tempo teria para ver esses planetas quase como um só, antes deles se esconderem sob o horizonte. Foi aí que os habitantes no hemisfério Sul levaram vantagem.
Uma conjunção também não acontece de uma só vez. Aos poucos, noite após noite, os planetas vão se aproximando mais e mais no céu. Um movimento silencioso e de grande beleza, que rendeu belas imagens aos fotógrafos da natureza, como mostra a galeria ao final dessa página.

POUCO A POUCO A lenta aproximação de Júpiter e Saturno. Gravura de Pete Lawrence.
Estrela do Natal?
Com a assombrosa velocidade com que informações de todo tipo se propagam na atualidade, foi inevitável a comparação entre a grande conjunção de 2020 e a história da Estrela de Belém, narrada no capítulo 2 do Evangelho de Mateus, na Bíblia. Aquele relato parece sugerir um astro singular que teria guiado três reis magos até o local de nascimento de Jesus.
Cometa, supernova e uma tríplice conjunção envolvendo Vênus, Júpiter e Saturno têm sido alguns dos fenômenos celestes aventados (entre outras hipóteses muito mais excêntricas) para explicar o que teriam visto os tais magos vindos do Oriente.
Mas essa conjunção não merece tal comparação. Os astros envolvidos estavam bem baixos no céu, concorrendo com a luz do Sol poente, e não ficaram ali por muito tempo antes de também caírem abaixo do horizonte. É também improvável que uma conjunção entre Júpiter e Saturno tenha sido tal “estrela”.

PERTO, MAS NEM TANTO Saturno estava centenas de milhões de quilômetros atrás de Júpiter em 21 de dezembro de 2020.
Muitas referências astrológicas e mensagens de paz e esperança também vieram junto com a conjunção de 2020 entre Júpiter e Saturno, dado o momento particularmente difícil daquele que foi o último ano da segunda década deste milênio.
Seriam sinais de um novo tempo começando? Nossas ações na Terra com certeza dizem muito mais sobre isso que a mecânica celeste, cujos astros, indiferentes aos desejos humanos, continuam seus percursos no macrocosmos como deuses do tempo. Como os senhores que gostaríamos de ser. ![]()
Galeria de fotos de grande conjunção de 2020
+ A estrela de Belém
+ Rotas espaciais










